Sexta-feira, Abril 03, 2009

O "Álbum-Beatle" de Roberto Carlos


Sempre que se faz uma lista dos discos mais importantes da história do rock brasileiro é comum que sejam citados dois álbuns gravados por Roberto Carlos, “Jovem Guarda” de 1965 ou “Roberto Carlos Em Ritmo De Aventura 1967. Dois grandes discos, sem dúvidas, porém, entre esses dois anos o cantor lançou outro grande LP comumente ignorado em favor desses. É o disco de 1966 que aqui chamo de “O Álbum-Beatle de Roberto Carlos”. Esse é o primeiro disco no qual transparece a influência do quarteto de Liverpool na obra do Rei, desde a capa inspirada no disco “With The Beatles” lançado na Inglaterra em 1963, o que denuncia uma influência tardia já que a base do disco de Roberto Carlos prevalece o rock chamado de Iê, Iê, Iê e na época os Beatles já estavam partindo para outros caminhos e experimentações sonoras (vide os discos “Rubber Soul” de 1965 e “Revolver” de 1966).

O faixa de abertura é “Eu te darei o céu”, considerada por alguns uma possível resposta de Roberto à canção do ano anterior “Quero que vá tudo pro inferno” embora o autor da canção (em parceria com Erasmo Carlos) afirme que não teve nada a ver. A frase de guitarra na introdução da canção lembra as sonoridades que os Beatles e os Byrds haviam produzido, aliás, as guitarras do disco puxam bastante para as gravações realizadas pelos FabFour entre 1964/65. A mudança da tonalidade maior para a menor na terceira parte quando canta: “Toda minha vida eu já te dei..."lembra a variação de acordes explorada pelos Beatles em “From Me To You” no trecho: I got arms that long to hold you...” quando a mesma tem uma modulação maior para menor. A condução feita no violão e o solo de “Nossa Canção” (Luiz Ayrão) têm ecos no elegante solo de violão executado por George Harrison na regravação da música “Till There As You” feita pelos Beatles, sendo essa música ainda uma das mais belas interpretações dos primeiros discos de Roberto Carlos. “Querem acabar comigo”, composição solitária de Roberto Carlos, é um caso à parte, de uma originalidade incrível, desde a letra em tom de autodefesa depois disfarçada em uma canção de amor (“Querem acabar comigo nem eu mesmo sei porque...enquanto eu tiver você aqui, ninguém poderá me destruir”), passando pelo arranjo bem ousado e moderno para a época sobretudo a condução dos tambores, tendo grande destaque também o órgão tocado por Lafayette, aliás esse na verdade era um dos grandes diferenciais na sonoridade de RC para os Beatles, que se baseavam mais nas cordas sendo ainda que frequentemente Roberto se utilizava dos metais que por acaso (ou não) quase não aparecem nesse disco ao contrário de TODOS os anteriores e posteriores.

Na seqüência a regravação da bela balada “Esqueça” (“Forget Him”) de Mark Anthony versionada para o português por Roberto Corte Real com uma levada no melhor estilo “Things We Said Today”, canção de Lennon-McCartney incluída na trilha sonora do disco “A Hard Day´s Nigth” 1964 (no Brasil, “Os Reis do Iê, Iê, Iê”), este álbum contém ainda a música “And I Love Her” que foi gravada por Roberto Carlos vinte anos depois como “Eu Te Amo” em versão de sua própria autoria, sendo até então a única gravação efetuada por ele de uma canção dos Beatles. “Negro Gato” de Getúlio Côrtes, descaradamente inspirada na composição “Three Cool Cats” da dupla de compositores Jerry Leiber e Mike Stoller (responsáveis por diversos clássicos do Rock´n´ Roll) é uma das mais vibrantes e roqueiras gravações de RC, a guitarra sensacional gravada pelo músico Gato dá a tônica da canção junto com os berros de Roberto Carlos. Detalhe: a música “Three Cool Cats” fazia parte do repertório dos Beatles antes da fama e está presente no disco “Anthology 1” de 1995 com a versão interpretada por eles em um teste para a gravadora Decca.

Fechando o primeiro lado A, “Eu estou apaixonado por você” com uma sonoridade mais latina que apesar da letra ingênua pode ser vista como um embrião da fase “latin lover” que o cantor viveu no final dos anos 1970 com uma interpretação sensual feita com uma voz quase gemida. O solo de gaita nessa faixa seria por influência de John Lennon, vide as canções "Love Me Do", "Please, Please Me", "I Should Have Know Better", entre outras músicas dos Beatles que o músico toca esse instrumento?

O lado B abre com a faixa “Namoradinha de um amigo meu” assinada somente por Roberto Carlos (embora ele tenha dito numa entrevista que Erasmo tenha modificado algumas coisas) e que por ironia do destino foi escrita para uma banda chamada Beatniks gravar, porém eles finalizaram o disco antes que Roberto tivesse enviado-lhes a música. Mais uma vez o órgão prevalece na condução da música. “O Gênio” também de Getúlio Côrtes tem novamente ritmo pulsante e guitarras na linha de frente e é a única faixa que apresenta um solo de saxofone no disco. A balada “Não Precisas Chorar” de Edson Ribeiro também apresenta boas frases de guitarra, sempre com uma sonoridade bem beatle. O “Golden Boy” Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves assinam um dos maiores clássicos do repertório roqueiro do Rei, “É Papo Firme” que narra o comportamento de uma garota “prafrentex” “que gostava de gíria e muito embalo”, mais uma vez a guitarra faz o papel principal, desde sua interessante divisão de tempo na introdução até o solo cheio de energia, durante toda a música a guitarra dialoga com o órgão nos intervalos das frases cantadas por RC. “Esperando Por Você” da compositora Helena dos Santos têm como destaque essa dobradinha guitarra-órgão. Para fechar “Ar de Moço Bom” de Othon Russo e Niquinho que Roberto canta com voz macia do jeito que manda o figurino de um bom rapaz. Esse disco mostra claramente que a influência dos Beatles sobre o Rei do Iê, Iê, Iê foi muito além dos terninhos que ele usava no programa Jovem Guarda. Roberto consegue mostrar que existe uma diferença entre ser influenciado e simplesmente copiar.



Fotos: capas de Roberto Carlos (1966) e With The Beatles(1963) e Roberto Carlos tocando uma guitarra Rickembacker de 12 cordas popularizada pelo uso de George Harrison.














Segunda-feira, Julho 14, 2008

O Mundo Encantado do Ultraje À Rigor (ou Roger Pan na Terra do Nunca)

Belo Horizonte, 12 de Julho de 2008

A banda Ultraje À Rigor passou por BH nesse fim de semana e eu meio que caí de pára-quedas no show dos caras, depois de sair de uma sessão de cinema, na qual vi o filme “Pequenas Histórias” de Helvécio Ratton (recomendo aos leitores!!!), resolvi dar uma volta solitária pela cidade, porém, encontrei casualmente com minha amiga Natália num bar e ela acabou me convencendo a ir ao show do Ultraje (eu tinha a intenção de ir ao do Lulu Santos caso fosse a algum show nesse dia). Para variar, a mesma estória de sempre na hora de comprar o ingresso, já haviam esgotado as entradas e eu me recusava a pagar o preço caro cobrado pelos cambistas, mas com a filosofia do “deixar fluir” (quem leu aqui sobre o show dos Mutantes vai entender) consegui o que imagino ter sido o último ingresso vendido naquela noite de um sujeito que parece ter levado um bolo de alguém. Lá dentro encontramos com nosso brother Gabriel e foi só deixar rolar o som...

O Ultraje subiu ao palco com Roger Moreira (o eterno Ultraje) na guitarra e voz, o também velho de guerra Sérgio Serra na guitarra, Mingau no baixo, Bacalhau na bateria, Manito (Os Incríveis) no sax e percussão e desfilou uma série crescente de hits: Zoraide, Rebelde Sem Causa, Inútil, Jesse Go, Eu Me Amo, Independente Futebol Clube, Mim Quer Tocar, Eu Gosto de Mulher, Ciúme, Nós Vamos Invadir Sua Praia, Terceiro, Sexo!!, Pelado, Maximillian Sheldon, Filha da Puta, Volta Comigo, O Chiclete, Marylou, Nada A Declarar e seus tradicionais covers dos anos 50 e 60 Let´s Twist Again, Barbara Anne (que ficou só na introdução porque Roger se deu conta que o cara que fazia o vocal agudo não estava no show), e uma inesperada Paranoid do Black Sabbath em nome do Dia Mundial do Rock (depois da meia noite), o que me fez ficar pensando como o rádio antigamente era muito mais variado permitindo a uma banda do rock nacional ter tantos êxitos no dial junto com artistas dos mais variados estilo ao contrário da mesmice que acontece hoje com uma ou duas duplas sertanejas mais uma banda de axé sendo executadas até a exaustão e substituídas por outras do mesmo naipe duas semanas depois. As músicas do Ultraje ainda estão na boca de todo mundo.

Quanto ao show em si foi muito bacana ver a casa lotada para receber a banda e a energia que Roger esbanja aos 51 anos de idade, também deu para entender porque Sérgio Serra saiu do Barão Vermelho, segundo consta, Frejat odiava seus solos longos, Serra parecia um adolescente querendo mostrar aos amigos do bairro que sabia tocar insistindo em não calar sua guitarra nem nos intervalos das músicas ou durante alguns minutos em que Roger afinava sua guitarra, solava atropelando os vocais de Roger e por aí vai... nada que desabonasse o show, teve quem curtiu muito esses solos dele. Em alguns momentos me senti teletransportado aos anos 80 (por acaso esse show fazia parte de uma festa dos anos 80, mas não me recordava disso durante a noite). Outro momento bacana foi a participação especial do presidente de um fã-clube da banda tocando a música Mauro Bundinha.

Roger cantando esse repertório parece um Peter Pan, um cara que não quer “crescer” e o Ultraje uma banda nada pretensiosa que se recusa a evoluir. Não sei o porquê mais alguma coisa me diz que isso é ROCK´N´ROLL!!!



Fotos: Natália Santana; na última, a fotográfa, Gabriel (de boné camuflado), Eduardo(de barba) e o autor do blog se preparam para soltar a voz no refrão de Filha da Puta.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Erasmo Carlos: 66 anos de idade, 50 de amizade com Roberto Carlos e toda a eternidade do Rock´n´Roll


Às vezes a gente pensa que já viu tudo na vida e de repente eis que somos surpreendidos. Erasmo Carlos, o eterno Tremendão me fez sentir essa sensação novamente durante seu show na última sexta-feira, dia 23 de abril. Cheguei à casa de shows e achei o movimento muito pequeno, quando entrei a impressão se confirmou, a platéia não estava tão grande, não me parecia um volume que fizesse jus a grandeza do artista. Porém bastou a banda atacar a introdução e Erasmo pôr os pés no palco para que qualquer imagem negativa se desfizesse, o público não era pequeno, era SELETO. Erasmo foi acompanhando em coro durante o show em todas as canções apresentadas e aplaudido calorosamente ao fim de cada uma delas. Abriu a noite com “Bicho de Estimação”, do cd Pra Falar de Amor, desse disco também apresentou a canção “Mais um na multidão”, gravada em dueto com a cantora Marisa Monte, na seqüência veio “Mesmo Que Seja Eu”. Cantou o amor às mulheres com suas clássicas “Mulher (Sexo Frágil)” e “Minha Superstar” e; em tempos de aquecimento global lembrou de sua “Panorama Ecológico” e o fato dele e Roberto Carlos estarem ligados em ecologia desde 1972.

O momento de maior emoção do show foi exatamente uma homenagem que Erasmo fez a Roberto, no meio do espetáculo ele lembrou que eles se conheceram há exatos 50 anos, às vésperas de um show de Bill Halley no Maracanãzinho quando Roberto foi levado por um amigo à casa de Erasmo pela necessidade de conseguir uma letra de Elvis Presley para cantar no pré-show do roqueiro americano. Somente com o acompanhamento dos teclados, Erasmo acendeu uma vela e entoou um medley com algumas das maiores composições da dupla lançadas pelo parceiro Roberto, entre elas “Desabafo”, “Café da Manhã”, “Olha”(que já havia sido apresentada na íntegra), “Detalhes” e “Cavalgada”. Cássia Eller também foi homenageada na canção “Nasci Para Chorar” versão que Erasmo assinou em 1964 e foi lançada por Roberto e que havia sido gravada pela cantora pouco tempo antes de sua morte para inclusão na trilha sonora do filme Houve Uma Vez Dois Verões.

Também fizeram parte do repertório as canções “Além do Horizonte”, “Pega na Mentira”, “Amar Pra Viver ou Morrer de Amor”, “Sou Uma Criança Não Entendo Nada”, “Gatinha Manhosa”, e obviamente seu maior sucesso não poderia faltar, “Sentado A Beira Do Caminho” na qual o artista se acompanhou ao violão, assim como em “O Calhambeque” outra versão que escreveu e foi um dos primeiros sucessos de Roberto Carlos.

Na última parte do show Erasmo mandou ver no Rock´n´Roll nas canções: “Eu Sou Terrível”, “Lobo Mau”, “Minha Fama de Mau”, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, “Splish, Splash”, “O Terror Dos Namorados”, “É Proibido Fumar” e “Festa De Arromba” que provaram que ele merece mesmo o título de pai do Rock Brasileiro ao colocar para fora toda energia que um show de rock não dispensa. Erasmo contou com a força de sua banda que literalmente senta pau no Rock composta pelo grande guitarrista Rick Ferreira (Rick´n´Roll como diz Erasmo), o tecladista José Lourenço que também é o diretor musical, Alexandre Cavallo no contrabaixo, Sérgio Nacife na batera, Marcos Neto nos violões e teclados, Percy na guitarra e Daniel Dantas sax e flauta. Vale ainda destacar o som que estava excelente, fato raro em ginásios. Erasmo mostrou que está em plena forma aos 66 anos de idade assim como alguns de seus companheiros de geração como Paul McCartney e os Rolling Stones. Então Let´s Rock, Tremendão porque tem uma molecada aí que ainda precisa aprender o que é Rock´n´Roll!!!


Obs: as fotos não são referentes ao show em questão.

Em tempo: Erasmo Carlos recebeu um Tributo virtual do qual participaram várias bandas e artistas brasileiros e entre eles o autor desse blog. Conheça o projeto:

http://projetotremendao.blogspot.com/

Sábado, Janeiro 26, 2008

Eric Clapton - A Autobiografia (ou O Evangelho Segundo O Pai de Jesus Cristo)



A Autobiografia de Eric Clapton (Ed. Planeta) registra detalhes de sua trajetória profissional, alguns por demais conhecidos do público, mas nunca deixa de ser interessante conhecer a visão pessoal de quem realmente viveu os fatos ou como se deram certas transformações e; ao mesmo tempo é um relato comovente de sua vida pessoal.

No que tange a vida artística, Clapton discorre sobre o amor à música e à guitarra, seus grandes mestres do blues, as bandas que integrou: Yardbirds, John Mayall and The BluesBreakers, Cream, Blind Faith e a carreira solo, fala ainda dos amigos músicos, um destaque é George Harrison com quem dividiu o amor à música, à guitarra e uma esposa.

O que sempre interessou ao guitarrista foi mesmo tocar, não deixando boas impressões de todo o resto que circula ao redor do showbussinness. As drogas, farras e bebedeiras não parecem de maneira alguma representar os melhores dias de sua vida.

Clapton fala abertamente de todas as loucuras e dores vividas, desde a confusa relação com a mãe de quem acreditava ser irmão tendo sido criado por seus avós como se esses fossem seus pais; passando pelos atordoados relacionamentos amorosos; o inferno das drogas que quase o tiraram de circulação por algumas vezes; o alcoolismo e todo seu trabalho de recuperação e; a traumática morte de seu filho Conor. O maior foco do livro é mesmo o lado humano daquele que ficou conhecido pelo apelido de “Deus”, expondo todas as suas fragilidades de maneira bem direta e crua. Eric Clapton nunca teve vocação para rockstar ainda que hoje seja uma das maiores lendas (vivas) da história da música popular. No final do livro ao concluir que finalmente conseguiu constituir uma família após os 50 anos de idade casando com a jovem Melia que tem quase metade de sua idade e com quem teve três filhas (ele tem mais uma filha fruto de relacionamento anterior ao casamento), Clapton deixa escapar o sentimento que isso sempre fora o que ele realmente quisera ter durante toda a vida, uma família e um lar (com direito a boas caçadas e pescarias nas horas de lazer). Algo deveras simples (e difícil) para quem foi (é) considerado Deus.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

BARÃO VERMELHO – POR QUE A GENTE É ASSIM


A maior banda de Rock´n´Roll do Brasil registra sua história em livro


O lançamento do livro Barão Vermelho – Por Que A Gente É Assim, escrito pelo baterista Guto Goffi em parceria com Ezequiel Neves e o jornalista Ricardo Pinto rendeu um super show em formato jam session no Circo Voador no dia 11 de dezembro de 2007, com os integrantes que já passaram pela banda, trazendo ao palco todas suas formações, exceto claro, a ausência de Cazuza. A noite foi aberta com uma sessão de autógrafos que contou com os autores e os integrantes atuais da banda embora o Barão esteja novamente “dando um tempo” enquanto os integrantes se dedicam a projetos individuais. Guto bancou o apresentador sempre convidado os integrantes ao palco num show com um clima intimista e totalmente alto astral que começou com a formação que contava com ele mesmo na bateria, Maurício Barros com quem iniciou a banda nos teclados, Tony Rockeiro na guitarra e Cláudio Kayath no baixo que foi a formação pré-histórica da banda. Eles fizeram um número instrumental improvisado. Foram convidados ao palco então o baixista Dé, e Frejat anunciado por Guto como o principal compositor da história da banda. Aí rolaram canções sempre seguindo a ordem cronológica dos discos e suas formações na época. “Bilhetinho Azul” essa apenas com acompanhamento instrumental da guitarra de Frejat na primeira parte e os demais integrantes fazendo os backing vocals para assumirem seus respectivos instrumentos na segunda parte da canção. “Posando de Star” teve Dé no vocal, Sérgio Serra foi chamado ao palco para as canções “Billy Negão” e “Ponto Fraco” ainda do primeiro disco da banda auto intitulado “Barão Vermelho” de 1982. Do álbum “Maior Abandonado” tocaram a faixa título e “Bete Balanço”. Na seqüência tocaram “Declare Guerra” do álbum homônimo, deixando o álbum “Rock´n Geral” de fora. Sem o tecladista Maurício Barros que havia deixado a banda na ocasião do lançamento de “Carnaval” entra em cena “a guitarra inspirada” Fernando Magalhães e o percussionista Peninha, executaram “O que você faz á noite”, parceria de Dé com o Engenheiro do Hawaii Humberto Gessinger. Direto para o disco “Na Calada da Noite” (o álbum anterior havia sido o “Ao Vivo” com os sucessos do grupo) tocaram agora com a presença do baixista Dadi, depois de Dé ter abandonado o barco e o retorno de Maurício Barros, “Tão Longe de Tudo” (com direito ao solo de baixo de Dadi) e “O Poeta Está Vivo”. Para a seqüência do show entra no palco o baixista Rodrigo Santos que assumiu as quatro cordas com saída do “leãozinho” Dadi que foi prestar seus serviços ao mano Caetano. “Pedra, Flor e Espinho” foi a escolhida do disco “Supermercados da Vida”. De “Carne Crua” mandaram “Meus Bons Amigos”. Pulando também o disco “Álbum” de releituras, tocaram “Por Você” do disco “Puro Êxtase”, curiosamente não tocaram nenhuma do disco “Barão Vermelho” de 2004. Para fechar, “Pense e Dance” (com os três baixistas que passaram pela banda tocando juntos) e “Pro Dia Nascer Feliz” com participação de Sérgio Serra deixando a banda também com três guitarras. Depois passaram pelo palco mini-shows com os projetos paralelos de cada integrante (exceto Frejat), Rodrigo mostrou seu projeto solo e também tocou com “Os Britos” (um cover de Beatles totalmente descompromissado) que tem Guto na bateria e o “Kid Abelha” George Israel na guitarra. Fernando apresentou canções instrumentais de seu cd virtual. Maurício também divulgou seu trabalho solo assim como Dadi que encerrou a noite com muita digniDADI (péssimo trocadilho, Guto, hauahuahuahua) já para poucos presentes, embora o Circo estive lotado durante a apresentação do Barão.
Então vamos ao livro que tem orelha assinada por Ney Matogrosso um dos responsáveis pelo aparecimento do Barão no cenário nacional ao regravar a música “Pro Dia Nascer Feliz”. “Barão Vermelho Por que a gente assim” tem seu título emprestado da canção assinada em parceria por Cazuza e Frejat e lançada no segundo álbum da banda “Barão Vermelho 2” e começa exatamente no momento em que Guto Goffi e Maurício Barros decidem montar uma banda, o livro é entremeado por recortes de jornais e revistas; e fotos históricas e raras da banda. Fala de todos os discos lançados (eu acho que isso poderia ter sido mais bem explorado com um faixa a faixa mesmo); os shows mais importantes, desde os primórdios no Circo Voador, aos grandes festivais, como o Rock In Rio I e III (não deixando de citar a segunda edição do festival que eles se recusaram a participar devido ao tratamento dada as bandas brasileiras como a impossibilidade de passar o som), Hollywood Rock ou a abertura para os Rolling Stones em 1995 (que tive a honra de ver naquele dia chuvoso no Pacaembu, ouvir “Quando” e “Quem me olha só” debaixo daquela chuva que durou mais de seis horas foi algo único); juntando-se a isso as furadas turnês em território norte-americano.
Os escritos revelam as polêmicas e envolvimentos com drogas como a prisão, as trocas de integrantes desde a traumática saída de Cazuza e todas as loucuras que podem ser vividas por uma banda de Rock´n´Roll nas estradas da vida. Embora curiosamente muito à vontade para falarem de drogas, o sexo parece ter sido o grande tabu para os hoje barões senhores e pais de família já que nada aparece sobre isso no livro, a não ser por algumas citações sobre casos de Cazuza (não que eu tenha maiores interesses na vida sexual dos barões ou que biografias devam ter seção de fofocas, mas é interessante constatar como as drogas são tratadas com tamanha naturalidade e nenhuma responsabilidade social enquanto sexo permanece um tabu).
No mais, o livro é ótimo e seria interessante termos mais publicações assim mostrando a história da nossa música e também é bom ter um pouco de acesso e saber como funciona a chamada indústria fonográfica brasileira (“pornográfica” como eles chamam no livro). Vida longa ao Rock´n´Roll, vida longa ao Barão Vermelho!!!


Fotos: a capa do livro; e no palco do Circo Voador: Frejat, Dé, Maurício e Guto; Frejat ; Frejat, Guto, Ezequiel Neves e Rodrigo Pinto na sessão de autográfos. Fotos by Bruna Mariana

Sábado, Dezembro 15, 2007

The Police para quem precisa

Oito de dezembro, fatídico dia do assassinato de John Lennon em 1980 e da morte de Tom Jobim em 1994, a partir de 2007 a data passa a ter um significado musical positivo, pelo menos para mim e para quem teve a oportunidade de estar presente no maravilhoso show do The Police no Rio de Janeiro. Que porrada na cara!!! Depois de apagarem as luzes e os alto-falantes ecoarem a voz de Bob Marley cantando “Get Up, Stand Up”, às 21h30min em ponto eles entraram no palco como previsto (ah, se os shows brasileiros tivessem essa pontualidade). Antes passei pelo martírio que foi entrar no Estádio Jornalista Mário Filho, vulgo Maracanã (ah, se os shows brasileiros NÃO tivessem essa desorganização). Já acostumado com esse tipo de situação procurei manter o bom humor.
Logo na primeira música do show "Message In A Bottle" a banda já mostrou a que veio e sinceramente só essa abertura já teria valido o show. Na sequência vieram "Sincronicity II" e "Walkin On The Moon" que seguraram o clima empolgado da primeira canção e depois "Voices Inside My Head", "When The World Is Running Down" e "Don´t Close To Me" enquanto a banda desfilava toda a sua elegância musical. Sting arriscava umas frases em português nos intervalos das canções como: "obrigado", “que saudade do Brasil” ou "vocês querem cantar comigo?", até com certa fluência, incomum nos roqueiros ingleses que baixam na terra de Machado de Assis, por certo, resultado do antigo namoro com o Brasil através das amizades com o já citado compositor Tom Jobim ou os tempos de Floresta Amazônica com o Cacique Raoni. E o deleite seguia com "Driven To Tears", "Hole In My Life", "Truth Hits Everybody". Apesar do longo intervalo de mais de vinte anos a banda manteve no palco uma unidade ímpar numa combinação perfeita de técnica e emoção, com a bateria precisa de Copeland, os grooves de baixo marcantes e dançantes de Sting, e as belas texturas e solos de guitarra de Summers, tudo executado de forma bastante sedutora. Dispensáveis comentários para o equipamento, som, telões e todo o aparato técnico.
Outra coisa que descobri ou só agora me liguei para isso, é o fato de como o show deve ser diferente de acordo com o local na platéia que você se encontra, não apenas pela visibilidade do palco ou pelo som, mas sim pelas pessoas ao redor, nesse aspecto eu imagino que não haveria em todo o Estádio posicionamento melhor, cercado por verdadeiros fãs da banda que dançavam e cantavam todas as canções, entre elas uma garotinha de uns 12 anos e uma italianinha para lá de empolgada. Lulu Santos estava certo: “cada público tem o show que merece!”. Acho que os únicos que não mereciam é a já comum área VIP (formada por pseudo-celebridades que sequer conhecem o trabalho dos artistas e vão mais para aparecer na coluna social no dia seguinte ou em matérias tolas na TV dizendo que não conheciam a banda, ou cantando uma frase errada de uma canção que por ventura tenha sido tema de novela) que ficou numa posição privilegiada não permitindo um acesso muito próximo ao palco dos admiradores reais e que pagaram um alto preço pelo ingresso embora cada centavo tenha valido a pena.
A banda ainda tocou uma saraivada de hits alucinantes um após o outro, “Every Little Thing She Does Is Magic” (minha predileta), “Wrapped Around Your Finger”, “De Do Do Do De Da Da Da”, “Invisible Sun”, “Walking In Your Footsteps”, “Can't Stand Losing You”, “Roxanne”, “King Of Pain” (numa versão que superou de longe a original) e “So Lonely” para encerrar no bis com “Every Breathe You Take” sempre com os improvisos que só um trio tem liberdade pra fazer, e mais do que liberdade eles têm uma extrema competência. Ainda que pareça clichê, no show realizado no Rio durante o verão, tudo cheirava a alegria, carnaval e sensualidade. Se dois amigos chamaram o show de Roger Waters em fevereiro de orgasmo estético posso afirmar que esse show também foi um orgasmo, mas sexual mesmo.

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Deixando Fluir – Show dos Mutantes em Belo Horizonte 05 de julho de 2007



Confesso que nunca fui fã dos Mutantes, gosto de uma canção ou outra, a banda sempre me pareceu exageradamente pretensiosa, muito embora eu sempre tenha nutrido interesse pelo trabalho do guitarrista Sérgio Dias por mais contraditório que isso possa parecer. Curto algumas coisas da mala Rita Lee, mais o pop dos anos 80 do que o rock dos 70 embora tenha vários bons momentos, mas por algum motivo resolvi ir ao show da formação atual (ingresso barato talvez) que me pareceu não agradar muito aos fãs de plantão (normal). Ah, para fechar o pacote, também nunca admirei nem um pouquinho (mas nem um pouquinho mesmo) a Zélia Duncan, atual vocalista. Apesar de tudo vi uns trechos do show em Londres na tevê e agradei. Depois de um desencontro na hora de comprar os ingressos por parte da minha amiga Natália, descobri que já haviam esgotado. Por mim tudo bem, eu não fazia questão realmente de ver o show e decidi mesmo ficar em casa. Às 18 horas, a Camila (outra amiga, mala igual a Rita Lee) me liga e propõe que a gente vá ao show pois sempre rola uns ingressos na porta, sabe como é...e seguindo a minha filosofia atual de deixar fluir, resolvi ir ao tal do show.

Ok, porta do local, “relax”, compro minha primeira lata de cerveja, a espera que o ingresso "venha" as minhas mãos. Vejo uma garota que por instantes penso ser uma conhecida, não era, o que não impediu que ela fosse amiga da minha amiga Natália que acabara de chegar no exato momento que ela negociava um ingresso com uma senhora que tinha dois sobrando (uma grande empresa patrocinava o show e havia distribuído alguns gratuitamente para os seus clientes) e por acaso um desses viria a ser minha entrada para o show.

Pronto. Lá dentro, a banda no palco; tento me situar e me encontrar naquele lugar, me sentindo totalmente um estranho no ninho por não ser fã da banda, tão pouco me identificar com o público, mas a idéia era deixar fluir. Um som embolado no começo não ajudava na percepção dos detalhes do que a banda tocava. Como eu desconfiava, a presença da vocalista Zélia Duncan não era nem um pouco justificável (musicalmente, pelo menos) a não ser por sua presença de palco, animação e sorriso simpático. A participação mais espiritual do que musical de Arnaldo Baptista (por acaso aniversariando no dia) já que um segundo tecladista se encarregava do "trabalho pesado" e seu microfone estava num volume baixo que escondia as notas desafinadas. Sobrou então para o senhor Sérgio Dias, grande motivo de minha ida ao espetáculo na verdade, que literalmente deu um show na guitarra (sua Régulus) com suas frases e timbres criativos. A banda se completa com o antigo baterista Dinho, a percussionista Simone Soul e a garota do backing vocal cujo nome não sei e que talvez não tenha assumido as primeiras vozes para não soar como uma cover da Rita. Lá pela terceira música comecei a entrar no clima ainda que permanecesse totalmente estático no meu lugar.

Grandes momentos foram garantidos com a performance de canções como “El Justiciero”, “Cantor de Mambo”, “Baby”, “Top Top”, “Desculpe, Baby”, “Fuga Nº. II”, “Balada do Louco”, “Meio Desligado”, “Minha Menina”, “Bat Macumba” e “Panis Et Circensis”.

Para meu espanto foi um belíssimo show, emocionate mesmo e a impressão que eu tive foi que assim como eu, a banda estava simplesmente deixando fluir...



A banda agradece ao público e Arnaldo faz suas flexões.