Sempre que se faz uma lista dos discos mais importantes da história do rock brasileiro é comum que sejam citados dois álbuns gravados por Roberto Carlos, “Jovem Guarda” de 1965 ou “Roberto Carlos
O faixa de abertura é “Eu te darei o céu”, considerada por alguns uma possível resposta de Roberto à canção do ano anterior “Quero que vá tudo pro inferno” embora o autor da canção (em parceria com Erasmo Carlos) afirme que não teve nada a ver. A frase de guitarra na introdução da canção lembra as sonoridades que os Beatles e os Byrds haviam produzido, aliás, as guitarras do disco puxam bastante para as gravações realizadas pelos FabFour entre 1964/65. A mudança da tonalidade maior para a menor na terceira parte quando canta: “Toda minha vida eu já te dei..."lembra a variação de acordes explorada pelos Beatles em “From Me To You” no trecho: I got arms that long to hold you...” quando a mesma tem uma modulação maior para menor. A condução feita no violão e o solo de “Nossa Canção” (Luiz Ayrão) têm ecos no elegante solo de violão executado por George Harrison na regravação da música “Till There As You” feita pelos Beatles, sendo essa música ainda uma das mais belas interpretações dos primeiros discos de Roberto Carlos. “Querem acabar comigo”, composição solitária de Roberto Carlos, é um caso à parte, de uma originalidade incrível, desde a letra em tom de autodefesa depois disfarçada em uma canção de amor (“Querem acabar comigo nem eu mesmo sei porque...enquanto eu tiver você aqui, ninguém poderá me destruir”), passando pelo arranjo bem ousado e moderno para a época sobretudo a condução dos tambores, tendo grande destaque também o órgão tocado por Lafayette, aliás esse na verdade era um dos grandes diferenciais na sonoridade de RC para os Beatles, que se baseavam mais nas cordas sendo ainda que frequentemente Roberto se utilizava dos metais que por acaso (ou não) quase não aparecem nesse disco ao contrário de TODOS os
anteriores e posteriores.
Na seqüência a regravação da bela balada “Esqueça” (“Forget Him”) de Mark Anthony versionada para o português por Roberto Corte Real com uma levada no melhor estilo “Things We Said Today”, canção de Lennon-McCartney incluída na trilha sonora do disco “A Hard Day´s Nigth” 1964 (no Brasil, “Os Reis do Iê, Iê, Iê”), este álbum contém ainda a música “And I Love Her” que foi gravada por Roberto Carlos vinte anos depois como “Eu Te Amo” em versão de sua própria autoria, sendo até então a única gravação efetuada por ele de uma canção dos Beatles. “Negro Gato” de Getúlio Côrtes, descaradamente inspirada na composição “Three Cool Cats” da dupla de compositores Jerry Leiber e Mike Stoller (responsáveis por diversos clássicos do Rock´n´ Roll) é uma das mais vibrantes e roqueiras gravações de RC, a guitarra sensacional gravada pelo músico Gato dá a tônica da canção junto com os berros de Roberto Carlos. Detalhe: a música “Three Cool Cats” fazia parte do repertório dos Beatles antes da fama e está presente no disco “Anthology
Fechando o primeiro lado A, “Eu estou apaixonado por você” com uma sonoridade mais latina que apesar da letra ingênua pode ser vista como um embrião da fase “latin lover” que o cantor viveu no final dos anos 1970 com uma interpretação sensual feita com uma voz quase gemida. O solo de gaita nessa faixa seria por influência de John Lennon, vide as canções "Love Me Do", "Please, Please Me", "I Should Have Know Better", entre outras músicas dos Beatles que o músico toca esse instrumento?
O lado B abre com a faixa “Namoradinha de um amigo meu” assinada somente por Roberto Carlos (embora ele tenha dito numa entrevista que Erasmo tenha modificado algumas coisas) e que por ironia do destino foi escrita para uma banda chamada Beatniks gravar, porém eles finalizaram o disco antes que Roberto tivesse enviado-lhes a música. Mais uma vez o órgão prevalece na condução da música. “O Gênio” também de Getúlio Côrtes tem novamente ritmo pulsante e guitarras na linha de frente e é a única faixa que apresenta um solo de saxofone no disco. A balada “Não Precisas Chorar” de Edson Ribeiro também apresenta boas frases de guitarra, sem
pre com uma sonoridade bem beatle. O “Golden Boy” Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves assinam um dos maiores clássicos do repertório roqueiro do Rei, “É Papo Firme” que narra o comportamento de uma garota “prafrentex” “que gostava de gíria e muito embalo”, mais uma vez a guitarra faz o papel principal, desde sua interessante divisão de tempo na introdução até o solo cheio de energia, durante toda a música a guitarra dialoga com o órgão nos intervalos das frases cantadas por RC. “Esperando Por Você” da compositora Helena dos Santos têm como destaque essa dobradinha guitarra-órgão. Para fechar “Ar de Moço Bom” de Othon Russo e Niquinho que Roberto canta com voz macia do jeito que manda o figurino de um bom rapaz. Esse disco mostra claramente que a influência dos Beatles sobre o Rei do Iê, Iê, Iê foi muito além dos terninhos que ele usava no programa Jovem Guarda. Roberto consegue mostrar que existe uma diferença entre ser influenciado e simplesmente copiar.
Fotos: capas de Roberto Carlos (1966) e With The Beatles(1963) e Roberto Carlos tocando uma guitarra Rickembacker de 12 cordas popularizada pelo uso de George Harrison.

Oito de dezembro, fatídico dia do assassinato de John Lennon em 1980 e da morte de Tom Jobim em 1994, a partir de 2007 a data passa a ter um significado musical positivo, pelo menos para mim e para quem teve a oportunidade de estar presente no maravilhoso show do The Police no Rio de Janeiro. Que porrada na cara!!! Depois de apagarem as luzes e os alto-falantes ecoarem a voz de Bob Marley cantando “Get Up, Stand Up”, às 21h30min em ponto eles entraram no palco como previsto (ah, se os shows brasileiros tivessem essa pontualidade). Antes passei pelo martírio que foi entrar no Estádio Jornalista Mário Filho, vulgo Maracanã (ah, se os shows brasileiros NÃO tivessem essa desorganização). Já acostumado com esse tipo de situação procurei manter o bom humor.



